Países em arquipélagos enfrentam perda econômica e o risco de desaparecerem

> Publicado 04 outubro - Leitura Read

Representantes de nações insulares tomam a dianteira nos debates sobre o aquecimento global, que pode fazer ilhas inteiras submergirem num futuro próximo.

 
Países em arquipélagos enfrentam perda econômica e o risco de desaparecerem


Países em pequenos arquipélagos espalhados pelos oceanos do mundo enfrentam um problema duplo: o risco de desaparecimento com o aumento no nível do mar e a queda no turismo — um motor na economia — devido à pandemia de Covid-19.


Dependentes do turismo, governos também cobram distribuição igualitária de vacinas para retomada segura.


A dupla preocupação foi externada no discurso de autoridades de países insulares na Assembleia Geral das Nações Unidas, encerrada nesta semana. 


Os governos pediram comprometimento dos mais ricos com as metas de diminuir a emissão de carbono e com a distribuição igualitária de vacinas contra o coronavírus.


Esse pedido de atenção, inclusive, se traduziu na escolha de Abdulla Shahid para presidir a Assembleia da ONU. 


Ele é Ministro das Relações Exteriores de Maldivas, país no Oceano Índico que corre risco de sumir com o aumento do nível do mar e que tem no turismo uma de suas principais atividades econômicas. 


O risco para populações litorâneas é conhecido há décadas: com a maior temperatura média do planeta, o derretimento do gelo polar e do permafrost — ou seja, o solo permanentemente congelado nas regiões frias do globo — levaria ao aumento do nível do mar. 


Assim, cidades inteiras poderiam ser engolidas mesmo que os oceanos subissem poucos metros.


No caso do permafrost, a situação é ainda mais grave porque, ao todo, essa camada de solo contém quase 1,7 trilhão de toneladas de carbono — quase o dobro do dióxido de carbono presente na atmosfera. 


Ou seja, um ciclo vicioso de derretimento do gelo e de aumento na temperatura da Terra com a emissão de gases estufa.


Por isso, em entrevista na quinta-feira (30), o coordenador sênior do Programa de Meio Ambiente da ONU (UNEP), Niklas Hagelberg, reconheceu que os riscos para as populações nos pequenos arquipélagos estão aumentando.


"Já estamos olhando para algum aumento no nível do mar, com o derretimento do gelo polar e do permafrost mesmo se pararmos todas as emissões. Então, um cenário de inundações é algo cada vez mais provável”, alertou.


Isso afetaria, segundo ele, não só países como Tuvalu, Ilhas Marshall, Maldivas ou Kiribati, mas populações inteiras de áreas continentais baixas como as margens dos rios em Bangladesh, no sul da Ásia.


A diferença é que existe uma preocupação com as nações insulares porque, caso o nível do mar aumente, todo o território de países inteiros ficaria submerso. 


Ou seja, a população de um país inteiro — ainda que pequena — teria que ser deslocada a outras nações, causando uma questão migratória.


Em consequência disso, haveria uma questão inédita: ainda não há uma resposta definida sobre como lidar juridicamente com cidadãos de um país que deixou de existir em decorrência de uma catástrofe natural, e não de uma guerra.


Assim, a ONU abriga desde a conferência de meio ambiente no Rio de Janeiro em 1992 o grupo de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS, na sigla em inglês), com 38 países integrantes e outros 20 associados. 


Cerca de 65 milhões de habitantes, quase 1% da população mundial vivem nessas ilhas e, portanto, podem ser gravemente afetadas com o aumento do nível do mar.


Os integrantes do SIDS, então, debatem com frequência formas de pressionar países mais ricos e desenvolvidos para que cumpram com as metas climáticas, além de discutir soluções conjuntas para o problema do aumento do nível do mar e outras catástrofes associadas ao clima.

                                   
Países em arquipélagos enfrentam perda econômica e o risco de desaparecerem

Os pequenos países insulares têm na maioria das vezes o turismo como principal fonte de renda 


Pacotes de viagens para paraísos tropicais como as Maldivas são bastante procurados, por exemplo, para visitas que vão de luas de mel a eventos de negócios.


Com a pandemia da Covid-19, o setor parou — e, ao voltar, a retomada tem sido lenta, com idas e vindas, exigências de testes e outros protocolos.


É por isso que, além de pedirem comprometimento com a meta de limitar as emissões de carbono para que o aumento na temperatura global não ultrapasse 1,5°C, os líderes desses países pediram na assembleia uma distribuição igualitária de vacinas.


As Maldivas, por exemplo, conseguiram avançar bem na vacinação, com mais de 60% das pessoas já completamente imunizadas segundo o levantamento do Our World In Data, que compila dados do mundo inteiro com a Universidade de Oxford.

                               
Países em arquipélagos enfrentam perda econômica e o risco de desaparecerem
                

As atenções se voltam ao Brasil quando as mudanças climáticas entram em pauta.

 

Sobretudo em um contexto de forte pressão para reduzir o desmatamento na Amazônia — que ainda está em níveis preocupantes — e com as recentes queimadas no Cerrado e no Pantanal.


Afinal, a enorme cobertura vegetal brasileira ajuda a equilibrar a quantidade de CO2 na atmosfera, e o Brasil vem recebendo pressão internacional para se comprometer com as metas de preservação e redução dos gases estufa previstas no Acordo de Paris — o que, entre outras coisas, impacta na segurança dos pequenos países insulares.


A próxima rodada de conversas sobre o clima está marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia, na reunião da COP 26. 


Os países discutirão formas de frear o aumento da temperatura global para patamares inferiores a 2°C, o que ainda assim é pouco para evitar o aumento do nível do mar. 


Em entrevista à rádio pública francesa RFI, a secretária de Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, Marta Giannichi, adiantou que o Brasil não vai evitar conversas sobre o desmatamento e que pretende sair da reunião em Glasgow com "algo concreto" em relação às metas brasileiras.


Representantes da ONU, entretanto, reconhecem a dificuldade em traçar metas: cada país tem interesses e realidades muito singulares, que dificultam um entendimento e um consenso em relação ao que pode ou não ser feito para reduzir o impacto das mudanças climáticas.


"O Brasil tem suas próprias visões e circunstâncias, e eu não tenho como dizer qual o problema de cada país: todos têm questões singulares e visões especiais nas mesas de negociação", ponderou Niklas Hagelberg, do UNEP.


Foto Reprodução: Praia que compõem as Ilhas Marshall, país localizado no Oceano Pacífico que corre risco de desaparecimento caso nível do mar aumente. 


Redação da Maré.

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